09/06/2007
RJ TV – REDE GLOBO
O sorriso de uma criança, a felicidade de uma criança, a estabilidade emocional de uma criança de rua ou internada em um abrigo - é possível? O que nós podemos fazer? A instituição criada pela a entrevistada no Bate-Papo já beneficiou mais de 11 mil jovens e crianças. Essa é a história de Claudia Cabral.
Edney Silvestre: Claudia, sete mil crianças e jovens vivem em abrigos, instituições, afastadas de suas famílias de certa forma, no estado do Rio. Você acha que essas crianças estariam melhor se estivessem com as famílias?
Claudia Cabral, psicóloga: Uma grande parte delas, porque essas instituições de alguma forma atendem a criança no grupo como se fosse às vezes um número. Eu trabalhei muitos anos dentro dessas instituições. A hora da visita é o momento mais importante para elas. Um percentual de estatística diz que de 10% a 15% delas não têm família. Você precisa ver como fica o grupo que não recebe família diante de um sábado, de um domingo ou de uma segunda-feira, quando os pais levam a criança para casa. A vontade que o indivíduo tem de pertencer a um grupo, a uma casa, com mãe, pai e filho, a concepção de família, que é uma coisa já enraizada, de pertencimento na nossa cultura, isso vale mais do que qualquer instituição. A instituição em que eu trabalho, a Terra dos Homens, é especializada nesse trabalho com a família, na entrada na casa da criança. Então, fazemos, no caso da rua, parceria com outras instituições que são especializadas em abordagem de rua.
Fala-se muito que as crianças não querem sair da rua, que elas preferem ficar na rua e se drogar, entregar-se ao sexo e não voltar para suas casas. É verdade?
Não. Em termos de número de crianças que estão na rua, essas são 10% a 15%. Os outros, na grande maioria, gostariam de não estar tão expostos assim, porque a rua é violenta, eles sabem disso, depois de um tempo eles se cansam e sempre há alguém dentro da família que está interessado em estar com seu filho de volta, na maioria das vezes, a mãe. Mas podem haver outros membros da família. Todo mundo pensa: a criança que está dentro da instituição é para ser adotada. Eu estou doido para adotar e não consigo. Há tanta criança abandonada. Não há tanta criança com a situação jurídica de abandono definida. A grande maioria das crianças tem sua família e falta talvez um investimento maior dentro das famílias. E hoje há toda uma política que está sendo desenhada nesse sentido, uma política de assistência social, há um plano nacional de convivência familiar e comunitária, que é um direito que o Estatuto prevê, que é defender exatamente a permanência das crianças em casa e o desafio maior é toda essa parte também de sobrevivência, porque as famílias querem ter seus filhos de volta, mas acabam que se desorganizam e se desagregam, porque a luta está muito grande. A luta pela sobrevivência também provoca muita desagregação e muito conflito. Eu me lembro de um caso de três irmãos que foram adotados e foram para a Suíça. E a mãe deles apareceu no meu escritório, perguntando por eles. Eu mandei uma carta para a mãe na Suíça, eles já estavam grandes, com vinte e tantos anos, e eu perguntei o que podíamos fazer por esse caso. E os meninos estavam curiosos para conhecer essa mãe de origem, a mãe adotiva também estava bastante solícita e veio. No momento em que a mãe biológica estava contando o que aconteceu, o que decretou o abandono pareceu uma coisa tão frágil - foi uma briga muito grande dentro de casa. Ela estava tendo vários filhos, a mãe dela é que assumia aqueles três e chegou uma hora em que a mãe dela não agüentou, ficou nervosa e disse: “Chega! Agora você vai sair daqui e vai levar seus três filhos, porque eu não agüento mais, eu não posso mais continuar criando todos os seus filhos”. E por causa daquela briga, ela acabou saindo com as crianças e acabou colocando as crianças dentro dos abrigos, acomodou-se com a situação, nunca mais os visitou e com isso eles ficaram disponíveis para a adoção e acabaram sendo levados para tão longe. As situações vão fragilizando de tal forma que vemos casos difíceis em que poderíamos estar ajudando. E eu acho bastante interessante que se atraiam mais pessoas para essa vontade de virar um pouco esse jogo. estamos precisando nos unir e conhecer um pouco disso tudo que você tem mostrando no seu programa.
A gente de bem precisa se unir...
Muito. Eu acho que o que você tem feito, os programas, as pessoas, é bem um exemplo disso tudo de que há gente que faz e que precisa de um rebanho enorme por trás, porque o mundo está em uma velocidade e está atingindo cada um de nós.
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