RJ TV on line– REDE GLOBO - 20/03/2007
Por alguns trocados

Temos que cuidar da recuperação dos menores infratores, mas mais importante é criar condições para que os jovens não cheguem ao crime. Na segunda reportagem de uma série especial sobre os menores que ficam pelas ruas, crianças e adolescentes que trabalham em busca de trocados. Eles lavam vidros de carro, vendem balas, fazem malabarismo nos sinais de trânsito, pedem esmola nas calçadas e praças.

Com o dinheiro que recebem, ajudam no orçamento da família. Mas, nas ruas, estão expostos à violência. E a maioria fica longe da escola.
Destreza, agilidade - eles fazem do asfalto o picadeiro de cada dia. Moram longe, mas precisam do trabalho que a rua oferece.

“Minha mãe necessita. Meu pai necessita. Não tenho pai, na verdade...”, conta um menino.
Fabiano tem 15 anos. Desde os 5 anos trabalha. Depois da escola, pega a condução e vai para Copacabana, lugar de bons negócios. “Eu comecei trabalhando na rua, desde pequeno. Aos poucos, fui aprendendo a fazer malabarismo com mais bolinhas. Antes fazia só com três. Agora sei fazer com seis”, diz ele.

E quem veio de longe para conhecer a cidade maravilhosa aplaude. Os trocados recebidos ajudam no orçamento, mas alimentam uma polêmica. Dar ou não dinheiro para um trabalho que não é aceito pelo Estatuto da Criança e do Adolescente?

Para a psicóloga Cláudia Cabral, coordenadora de um programa de acolhimento a famílias pobres, só há uma maneira de se acabar com a esmola: “Se desde cedo criarmos políticas públicas que atendam dentro daquela comunidade toda a rede familiar, com um suporte aos pais. É um pouco aquela filosofia do cuidar de quem cuida. Se eu cuido dos pais, eles são capazes de cuidar dos seus filhos”.
A história de vida dos pequenos malabaris também é parecida. Têm famílias, freqüentam a escola e convivem com o desemprego de quem os cria. Para muitos deles, o dinheiro que ganham é a única renda da casa.

“Eu tiro R$ 15 ou R$ 10. Eu dou esse dinheiro para a minha avó e ela faz compras para casa”, comenta um menino.

Não importa se têm 6, 10 ou 15 anos. Eles não conseguem escapar das exigências da sobrevivência. Têm que ganhar algum dinheiro. Chegam a ficar nas ruas até sete horas seguidas. Comem quando alguém oferece alguma coisa.
“Eu gostaria de ganhar muito dinheiro para levar para casa. Eu daria para a minha mãe comprar comida”, deseja um deles.

Cinqüenta e sete por cento das crianças que perambulam pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro saem da Baixada Fluminense. O primeiro motivo que os faz abandonar a casa é a violência familiar. O segundo é a necessidade que eles têm de conseguir algum dinheiro para ajudar a mãe.

Abandonada pelo marido e com quatro filhos pequenos, uma mãe conhece bem o que é viver com o que as crianças ganham pelas ruas.
“A verdade é humilhante. Quem quer uma vida dessas? Que o filho venha e traga... Ou que a mãe venda também junto, uma balinha... Ninguém quer isso não”, garante.

Hoje ela é assistida por uma organização não-governamental. Prepara-se para entrar no mercado de trabalho e sabe exatamente o que espera de um futuro bem próximo. “Que eles acordassem de manhã, tomassem um cafezinho direito, fossem para a escola. Que estudassem, chegassem em casa e me mostrassem o dever que fizeram”, sonha ela.

Na reportagem de amanhã, vamos mostrar como muito jovens conseguem virar o jogo, fugir da violência e construir um novo futuro.



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