JORNAL O LIBERAL ONLINE - Editoria: Atualidades -
02/04/2006
Crianças carecem
de lar
Seminário discute ações para
que crianças que vivem em abrigos possam retornar
para o convívio familiar
A desestruturação familiar, ocasionada
por problemas socioeconômicos e psicológicos,
é um dos principais motivos que levam os menores
a recorrer a ruas e abrigos como locais de sobrevivência.
Diante do retrato cada vez mais cruel de meninos e
meninas sem lar no Brasil, a Associação
Brasileira de Terra dos Homens, organizações
governamentais e não-governamentais decidiram
se unir e desenvolver o projeto Grupo de Trabalho
Nacional Pró-Convivência Familiar e Comunitária,
desde novembro de 2005. O objetivo é obter
conhecimentos e propor procedimentos que possam contribuir
para a efetiva e sustentável garantia do direito
à convivência familiar e comunitária
de todas as crianças e adolescentes que, por
motivo ou outro, vivem em abrigos.
O tema foi debatido ontem no seminário 'O Direito
à Convivência Familiar e Comunitária
e sua aplicação', no auditório
Nathanael Leitão, do Ministério Público
do Estado (MPE). O evento reuniu representantes de
órgãos ligados à infância
e adolescência e órgãos estatais
e municipais para discutir o papel de cada instituição
na defesa da criança e traçar planos
de ação. O seminário foi organizado
pela Amici dei Bambini, através do projeto
Membira, em parceria com a Fundo das Nações
Unidas para a Infância (Unicef) e MPE.
'O melhor lugar da criança é com a família
e esse direito é violado, a partir do afastamento
da criança da família e da comunidade.
Com isso, vão parar nas ruas ou em abrigos.
No Brasil, ainda temos a tradição do
abrigo, que seria a solução do problema
da criança. É uma visão ultrapassada.
Por isso, estamos fazendo um esforço na intermediação
entre a criança e a família, que a recebe
em casa novamente', declarou Jacques Schwarzstein,
coordenador da Unicef em Belém.
No Brasil, já existem vários projetos
voltados para a reintegração da criança
à família, por meio de diversas formas
de reaproximação. Se o problema identificado
é financeiro, a solução é
buscar alternativas para garantir renda mínima
àquela família. Em relação
ao alcoolismo, outra fonte de dispersão entre
as famílias, o trabalho é de apoio sistêmico.
Se a resistência vier da criança, o convencimento
é feito de forma gradativa.
De acordo com Schwarzstein, a forma como as crianças
são educadas é uma das principais causas
que a motivam a deixar sua casa. A abordagem de pais
e mães, segundo o coordenador da Unicef, é
feita de forma equivocada. 'Educar sem punição
da violência física e psicológica
é um grande passo para evitar a saída
da criança de casa. Muitos pais empregam desrespeito
sistemático à criança, até
como uma forma de reproduzir uma educação
que os próprios pais tiveram e que é
tradicional na família brasileira', ressaltou
Schwarzstein.
Projeto tem sucesso na reintegração
Iniciado em janeiro de 2005, o Projeto Membira (que
em tupi-guarani significa filho ou filha) foi criado
com o objetivo de reinserir crianças que se
encontram em situação de abrigo. A meta
é atender 30 crianças e suas famílias
nos primeiros anos de execução. Mais
de um ano depois, 24 crianças já estão
em avançado estágio de reintegração
às famílias, das quais 22 mantêm
contato freqüente com os pais e mães por
meio de visitas semanais. O processo de reinclusão
é acompanhado por uma equipe executiva formada
por psicólogos, assistentes sociais, advogados
e pela coordenação geral do projeto.
'É um trabalho com a família de origem,
oferecendo oportunidade no momento de crise, seja
social, econômica ou psicológica e que
vêm sendo abandonadas pelo Estado. Os agentes
familiares são estudantes de serviço
social que acompanham as famílias e as crianças.
A maioria dos casos já está em convivência
familiar', disse coordenadora do projeto Membira,
Sâmia Monteiro.
O projeto é de origem não-governamental
e é coordenado por um coletivo de entidades,
como a AIBI (Amici dei Bambini), que responde juridicamente
pelo programa, o Grupo de Apoio à Adoção
Renascer, Fundação Papa João
XXIII e o Grupo de Estudo e Pesquisa da Infância
e Adolescência e Família (GEPIA), com
apoio técnico da Unicef. O público-alvo
do projeto é o Abrigo Euclides Coelho, no bairro
do Marco, que atende meninos de 7 a 12 anos incompletos
e que é ligado à Funpapa. Alguns meninos
que completam 12 anos e que são transferidos
para o Abrigo Ronaldo Araújo, em Icoaraci,
continuam sendo acompanhados pela equipe executiva
do Membira.
Outro trabalho relevante desenvolvido pelo Membira
é o Grupo da Família, coordenado pela
psicóloga Fátima Teixeira. Com apoio
de voluntários, são formados grupos
de apoio psicológico no sentido de estimular
a auto-estima para resgatar e valorizar as famílias
ligadas às crianças em situação
de abrigo. Hoje, cerca de 130 crianças estão
distribuídas nos seis abrigos existentes na
capital. 'Já estamos trabalhando em cima da
continuidade do projeto. A nossa idéia é
de que ele se transforme numa política de governo',
destacou. |