REVISTA ÉPOCA - 19/09/2005
De braços bem abertos
“Famílias acolhedoras” são
uma alternativa pouco conhecida aos abrigos, onde
milhares de crianças e adolescentes crescem
longe de seus pais
Paloma Cotes
Não fosse a disposição da família
Silva em ajudar o próximo, João*, de
4 anos, e Luciana*, de 10, teriam o mesmo destino
de milhares de crianças brasileiras: um orfanato.
Os dois tiveram a oportunidade de ganhar um lar substituto,
ao menos por um período provisório.Com
isso, deixaram de engordar as estatísticas
de crianças que acabam recolhidas a abrigos
para escapar da violência doméstica ou
da simples miséria.
Um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea) mostra que 87% das crianças
que estão em instituições possuem
família. Não são órfãs
nem foram abandonadas. De cada dez delas, seis mantêm
vínculos com pais, mães e responsáveis
que as deixaram no abrigo. 'Esses números derrubam
a crença de que todas as crianças podem
ser adotadas. É preciso apostar mais no poder
de recuperação das famílias',
diz Claudia Cabral, da ONG Terra dos Homens. Com esse
objetivo, foram criados, em algumas cidades do Brasil,
programas em que famílias ficam com a guarda
provisória de crianças enquanto os pais
e as mães biológicos tentam reverter
a situação em que vivem.
'Eu já ajudava instituições de
caridade com dinheiro. Mas não achava que estava
fazendo o suficiente', conta o funcionário
público Dorival da Silva, de 49 anos. E foi
essa insatisfação que fez ele e sua
mulher, Ermelinda, procurar pelo Serviço Alternativo
de Proteção Especial à Criança
e ao Adolescente (Sapeca), programa de acolhimento
familiar da prefeitura de Campinas (interior de São
Paulo). Não foi preciso esperar muito para
receber o primeiro telefonema. Em fevereiro de 2004,
as assistentes sociais procuravam uma família
acolhedora para João, de 2 anos. A mãe
dele havia sido vítima de uma tentativa de
assassinato. Nove meses depois, veio o pedido para
um segundo acolhimento. Luciana tinha 8 anos, diabetes
e não podia ficar em um abrigo, pois necessitava
de cuidados especiais. E lá foram os Silvas
arrumar a casa para receber mais uma criança.
Nesse meio tempo, Camila, de 19 anos, e Beatriz, de
12, filhas biológicas do casal, acabaram perdendo
um quarto. Mas ganharam dois irmãos, mesmo
que provisoriamente. 'A gente brinca. Mas também
briga', diz Camila.
Praticamente desconhecidas dos conselhos tutelares
e do próprio Poder Judiciário, as famílias
acolhedoras são uma alternativa prevista no
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Mais de 85% das crianças que estão em
abrigos foram encaminhadas pelas Varas de Infância,
que ainda preferem mandar meninos e meninas para orfanatos
a dar-lhes um ambiente familiar provisório.
Pela lei, cabe a cada município ou Estado desenvolver
programas de famílias acolhedoras. E eles ainda
são poucos no Brasil. Desde 1997, a cidade
do Rio de Janeiro tem um projeto de acolhimento. Para
fazer parte do programa carioca, basta ter entre 24
e 65 anos e não responder a processo judicial.
O tempo de acolhimento também varia entre os
programas. Em Campinas, crianças com até
5 anos de idade podem ficar provisoriamente com a
família por até um ano. As maiores de
5 anos, por no máximo 20 meses. As famílias
que se dispõem a entrar no programa são
avaliadas por assistentes sociais e psicólogos.
Além do acolhimento, os programas monitoram
o retorno das crianças para as famílias
biológicas por um período que varia
de um a cinco anos. Quem acolhe recebe uma bolsa-auxílio
dos governos, que varia de R$ 150 a um salário
mínimo.
E como fica o coração daqueles que abriram
as portas de casa para uma nova criança que,
meses depois, vai embora? Aos 41 anos, Denise Hesketh
de Brito já acolheu 23 crianças e adolescentes.
'Nem dá muito tempo de chorar porque, quando
um vai embora, já chega outro', brinca ela.
Mas a saudade dá lugar, na maioria dos casos,
a grandes amizades. Para facilitar o retorno das crianças,
as famílias se encontram periodicamente e acabam
trocando experiências. Jaqueline*, mãe
de João, ficou amedrontada quando soube que
seu filho estava nos braços de outra família.
Mas com o tempo percebeu que era a melhor alternativa
e usou o período em que esteve longe do filho
para reordenar a vida. Alugou uma casa, arrumou um
emprego e entendeu o verdadeiro significado da maternidade.
'Hoje, eles também são minha família',
diz Jaqueline.
* Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados
e de suas famílias
|